Que a cidade é feita pra carros já não é novidade. Desde que o modelo de desenvolvimento econômico foi baseado no crescimento da indústria automobilística estamos reféns dessas máquinas que nos transportam. Mas hoje em dia o transporte é o que menos importa no automóvel. Ele é uma extensão do ser humano motorizado. Algumas vezes extensão da masculinidade, noutras representa a força, o poder, o direito ao espaço e à locomoção veloz e confortável. E nisso as calçadas diminuem, e se fazem novas faixas pra carros, e viadutos, e estacionamentos e postos de combustível. Ano passado mais de 3 milhões de veículos novos foram emplacados no Brasil.
Vivemos a ditadura do automóvel.. quem manda são eles. Estão presentes na maior parte do dia por todos os lados. O trânsito monitorado, a preocupação com engarrafamentos, os pedágios, os mecânicos, os radares, as condições das estradas, enfim. Eles permeiam o pensamento de seus proprietários. É IPVA, é o estacionamento, manutenção, a água, o óleo, o seguro, o carro, o carro, o carro. Muita gente passa mais tempo no carro do que em qualquer outro lugar.
Mas enfim.. esse blá, blá, blá todo é só pra dizer que fui atropelado por uma dessas máquinas velozes que disputam espaço nas ruas de SP. Ando de bike há algum tempo por achar a melhor forma de me locomover.. chego com uma certa tranquilidade aos lugares, sem ficar parado no transito e sem ter a preocupação que traz o automóvel.
Só que um ser humano motorizado decidiu invadir a rua onde eu descia pedalando tranquilamente, e entrou na contra mão por não querer esperar que um ônibus descarregasse gente na calçada.. bati de frente com a máquina. Eu.. nu.. em cima de uma bicicleta.. sem escudo.. fui arremessado a alguns metros.. bati cabeça, joelho, braços, costas, mãos e rompi os três ligamentos do ombro direito.. terei que passar por uma cirurgia pra ver se coloco tudo de volta no lugar.. o carro teve sua placa amassada..
Resumindo.. não ande, não pedale.. dirija.. aí terá o espaço respeitado.. estendendo seu sucesso em quatro rodas.. sua masculinidade.. sua feminilidade.. aí você coloca um desse óculos escuros que cobrem o rosto todo e pode se sentir livre desfilando seu automóvel.


Concordo com você em muitos aspectos, os motoristas são assim mesmo, querem o monópolio, se sentem o máximo munidos de um volante e (quase) nada mais importa do que avançar. No entanto, há raras excessões, de pessoas que tem bom senso e utilizam o automóvel apenas como um transporte (teoricamente) mais prático. Os ciclistas pra mim são como heróis, admiro a coragem, a força de vontade e todo o ímpeto de enfrentar centenas de milhares de automóveis como um homem entre dinossauros. É uma luta sem dúvida injusta, mas não desista. Romper os ligamentos é apenas simbólico, é uma mensagem no subtexto que alerta: ligue-se. Você estará literalmente mais ligado e perceberá que o desafio deve continuar. Só posso desejar que haja equilibrio nesse universo de tantas rodas. Por que o mundo gira. Zefini.
Acho que a discussão sobre isso não pode cair na armadilha da dialética Bem X Mau, conforme o texto apresenta. É uma falácia pensar dessa maneira. O indivíduo deve ter liberdade de comprar seu carro e andar pela rua, assim como o deve ter a liberdade de caminha pela cidade se assim o desejar. Uma coisa não exclui a outra. Temos que montar arranjos legais que beneficiem ambos. Essa discussão não pode ser encarada como um jogo de soma zero, onde para um agente ganhar o outro necessariamente tem que perder, é um grande erro pensar assim.